Quem sou eu

Campinas, S. Paulo, Brazil
Historiador, Mestre em História Social (USP). Autor de "A presença oculta. Genealogia, identidade e cultura cristã-nova brasileira nos séculos XIX e XX": co-autor do "Dicionário Sefaradi de Sobrenomes / Dictionary of Sephardic Surnames" , "B.J. Duarte, caçador de imagens" e “Os primeiros judeus de S. Paulo - uma breve história contada através do Cemitério Israelita de Vila Mariana”.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

O engenheiro JOAQUIM AUGUSTO BRAVO CALDEIRA (1930-2017) não foi um amigo de FB, mas, um amigo que a genealogia me concedeu. Ambos gostávamos e conversávamos sobre o tema e não só – por exemplo a luta que ele mantinha com os concorrentes estrangeiros, muitas vezes próxima de um thriller. Nacionalista: o engenheiro Teodoro Sampaio fora professor de tupi na sua família e os caminhões da empresa tinham uma bandeira nacional pintada na lataria. Sempre pronto a inovar, passou a usar computadores para a pesquisa e foi o primeiro genealogista que conheci a apostar em genealogia genética (citei os resultados no livro “A presença oculta”). Era membro da ASBRAP (Associação Brasileira de Pesquisadores de História e Genealogia) comandada pelo Marcelo Meira Amaral Bogaciovas e fora coautor de “Os Carvalhos Buenos” com Antônio Roberto Nascimento. Qualquer assunto de fazenda ele discorria com o leve acento “mineiro”, seguro, didático e a forma de expô-lo, com humor, causava prazer no ouvinte. Conhecia como ninguém os escritos de Antonil. Eu pensava com tristeza, sem falar nada, como um homem destes: culto, bem formado e decente não era aproveitado para dirigir o país? Não só era um Príncipe da Economia (“Fermento Itaiquara” a sua empresa); mas um gentilhomem, daqueles que frequentaram a “Pensão Humaitá” (almoços na casa do historiador Yan de Almeida Prado, 1898-1987). Fui recebido na sua fazenda em Tapiratiba, S. Paulo, onde dormi na mesma cama que o governador Ademar dormira antes e almocei tão bem, onde o destaque foi uma salada cujos cubinhos de manga explodiam no céu da boca. Ele sofreu estoicamente golpes da vida, como o acidente que vitimou a sua esposa D. Sylvia Almeida Prado de Assumpção em 2007. Genealogicamente pertencia ao grupo “Quatrocentão”, daqueles que o saudoso jornalista Toninho, do Estadão identificava nos seus obituários: “membro de tradicionais troncos paulistas”. Ele voltou ao pó em 25 de agosto de 2017. Que Deus console a família.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Eu falo que não conhecia judeus na Itália até ser apresentada a ela. Conheci a ANNA ROSA CAMPAGNANO (1937-2017), quando o Guilherme Faiguenboim fundou a Sociedade Genealógica Judaica do Brasil em 1994. Nascida em Livorno, viveu por anos na Nigéria e no Brasil. Era prima do pintor Amedeo Modigliani (1884-1920) e sobrinha-neta do rabino Giacomo Augusto Hasdà (1869-1943), assassinado em Auschwitz durante o Holocausto. Ela nos apresentava judeus italianos que vivem em S. Paulo, conhecia toda a bibliografia e repartia conosco este conhecimento. Escreveu sobre o baggito (língua dos judeus de Livorno), sobre a “Colônia Mussolini” (judeus italianos expatriados no Brasil durante o final dos anos Trinta), emprestava e doava livros. Fotografou a meu pedido os “portugueses” sepultados no cemitério judaico de Livorno. Mesmo tendo uma casa grande para dirigir, marido, filhos e netos; fez mestrado e doutorado em História Social na USP, ainda encontrava tempo para ser voluntária em associações judaicas (como no Núcleo de História Oral do AHJB e no Ten Yad). G. F., ela e eu escrevemos um livro que foi premiado como “o melhor livro de referencia (judaica) nos EUA” (2003). Era tal a sua urgência de aproveitar a Vida; que, fazer duas coisas ao mesmo tempo, era pouco para ela. Elegante, não só na combinação de cores e no uso de colares extremamente bonitos; mas, também nas relações com os amigos e colegas. Um segredo: sua bolsa chiquíssima, era made in China comprada em Roma; o restante do dinheiro destinado a adquiri-la, ela empregou em caixas de livros despachados ao Brasil. Criatura boníssima, de uma generosidade ímpar, mística, sofreu estocadas da vida sem nenhuma reclamação (por ela eu compreendia o bíblico Jó). Sempre a tive como Irmã. Ela foi para o Jardim depois de uma prolongada enfermidade passada em sua casa italiana (10/06). Perdi alguém que eu admirava, prezava e respeitava muito. É destas pessoas que não serão substituídas nunca. Agradeço a Maria Grazia Gorla, Carla Milano, Deborah Gorla Rocha, Silvia Anna Maria Gorla, pelas notícias nestes dias.

segunda-feira, 6 de março de 2017

As vezes olho para mim e me sinto um impostor: Hei, habib, cadê o meu tarbush (chapéu cilíndrico)? Por que não aprendi a jogar shesh besh (gamão)? O bigode sumiu com a juventude; porém tenho mantido o gosto pela culinária otomana, o suficiente para ter frequentado as casas de pasto especializadas até o litoral atlântico. Tabule, pita, charuto de repolho, abobrinha e berinjelas recheadas e esfihas são minha salvação. Aqui em Campinas tive lugar cativo no PAPAI SALIM – o melhor nome destes lugares, pois brinca com o esteriótipo, eu apenas trocaria os “ps” pelos “bs” (não há o som “p” no árabe); ou o JABER em S. Paulo, onde sempre fomos recebidos gentilmente pelo “Sr. Maurício”. Aliás a ideia para esta nota surgiu quando descobrimos que ele ultrapassou os noventinha. Faz algum tempo que não passo pela rua Domingos de Morais..